Se descobrir negro na Amazônia: relato de um jovem quilombola

Dolorido e complicado. Essas são as palavras que melhor descrevem o processo até que eu pudesse me reconhecer e afirmar como negro. Dentro de casa eu já percebia o comportamento da minha mãe quando alguém dizia que nós éramos negros. O processo de descoberta começou cedo, o de aceitação não.

A negação me acompanhou desde o início, quando eu era pequeno. Ainda na escola comecei a perceber que havia algumas diferenças de como eu era tratado em relação às outras crianças, inclusive pelos professores. Na minha comunidade, o Quilombo de Gurupá, que fica na Ilha do Marajó, sempre ouvi que era descendente de escravo, e que escravo não prestava. Que eu só iria servir para trabalhar com certas coisas.

Mas hoje percebo o quanto isso é, também, um processo geracional. Antes de mim, a minha família também passou por isso, o que acabou influenciando a nossa vivência. Para falar a verdade, boa parte dos meus vizinhos e grupos de amigo passavam e passam pelo mesmo processo de negação da identidade negra.

Na adolescência, quando fui fazer o Ensino Médio em uma comunidade vizinha, que dizia que as pessoas de onde eu vinha não eram boas, a situação ficou ainda mais complicada. Chamavam a minha comunidade de África, de uma forma pejorativa. Na época, por toda essa formação, associando o continente apenas à escravidão e coisas negativas, eu comecei a negar minhas origens. Me afastava de todas as formas da minha identidade e da minha origem do Quilombo de Gurupá.

O espaço da universidade também não é muito acolhedor. Na minha turma da UFPA, a maioria dos alunos são brancos. Lembro que na primeira aula, quando falei que era negro, de uma comunidade quilombola, percebi muito sorrisinhos e cochichos. Já ouvi grupos de pessoas falando que eu não merecia estar ali, por ter feito um processo seletivo diferente, e que eu não sou tão inteligente.



Ao mesmo tempo, a partir do curso de História em si, e de colegas que também são negros e quilombolas, eu consegui olhar para o meu passado e entender que a minha história e a da minha comunidade não são exatamente como a minha professora de ensino fundamental contava. Pude conhecer que os negros têm uma história muito bela, que eram e são pessoas fortes. E isso contribuiu para que eu fosse me auto afirmando. Para que eu pudesse chegar nos espaços, e ainda que eu não seja acolhido, dizer que eu sou negro, quilombola e tenho orgulho da minha identidade.

Outro espaço que também contribuiu muito para minha autoafirmação foi o MAGIS. Alguns setores da Igreja Católica são complicados, mas aqui eu me senti acolhido. Conheci pessoas totalmente diferentes da minha realidade, mas que abraçavam e respeitavam a minha história. Essa vivência me estimulou a olhar para o meu passado, para minha trajetória de vida e procurasse saber mais sobre as minhas origens. Foi um passo fundamental para que eu começasse a reconhecer e valorizar a minha identidade preta.

Quando olho para a sociedade em que vivemos hoje, apesar das violências e das dificuldades, sinto que temos mais poder de fala. E, se eu pudesse citar uma coisa que precisaria melhorar é o sistema de educação básica. Durante a minha formação, foi algo que me afetou muito e acredito que ainda afeta muitas outras pessoas e a minha comunidade. Nós não temos professores preparados para lidar com a nossa realidade e identidade. Muitos carregam em si um preconceito camuflado e que talvez nem façam ideia o quanto isso pode afetar de forma negativa a vida de pessoas negras no futuro. Precisamos de professores que contem a história negra tirando a carga negativa, para que as crianças e jovens possam sentir orgulho da sua história, da sua descendência e ancestralidade.

Alan Batista, negro do Quilombo de Gurupá na Ilha do Marajós - PA, estudante de História da UFPA, integrante da equipe do Centro MAGIS Amazônia.


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