Amazonizar a partir do lugar onde mora: participante do Animadores partilha como foi sua experiência

A Oficina Animadores Ser Mais Amazônia encerrou no dia 29 de abri (2021), entretanto tudo aquilo que vivenciamos nos seus 3 módulos ainda ecoa dentro de nós. Pensando nisso, pedimos para um dos participantes partilhar a sua experiência na Oficina e como se animou para amazonizar no lugar onde ele mora.

Quem vai nos contar tudo isso é o Túlio Tavares. Confira abaixo o relato dele:




"Amazonizar a partir da minha realidade, carioca sudestina após os encontros “Animadores Ser Mais Amazônia”, foi crucial como meio de desconstrução e reconstrução do território amazônico, transmitido para nós de fora dessa região, a partir das lentes do senso comum.
Um vazio territorial, possuidor apenas de árvores, é o que “aprendemos” sobre esse espaço geográfico, além de zero informação com relação a identidade a partir da cultura, religiosidade, ancestralidade e cotidiano desse povo. A exceção ocorre através da grande festa dedicada à Nossa Senhora de Nazaré e sua repercussão a nível nacional e internacional, e nas décadas anteriores, ao sucesso nacional da então Banda Calypso.
A pluralidade de povos e formação cultural da Amazônia explicitada pelo antropólogo Romero Ximenes da Universidade Federal do Pará, foi imprescindível para o conhecimento de uma história negada ou abafada a mim, indivíduo fora do território amazônico - e através da minha percepção pessoal no encontro – história abafada em questão de conhecimento, até mesmo para os indivíduos que fazem parte do próprio território amazônico, como o conhecimento da identidade de muitos amazônidas a partir da culinária, do vale do rio, através do círio/festa de santos, entre outras. Além disso, a explicitação do antropólogo Ximenes, me levou a reflexão de que não só estados/cidades com visibilidade intensa como São Paulo, que possui grande número de nordestinos - principalmente da Bahia, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada divulgado em 2009; ou o Rio de Janeiro - principalmente paraibanos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2011. A região amazônica também conta com a migração nordestina, o estado do Acre por exemplo, possui um feriado do dia do Ceará, e os nordestinos também fazem parte da identidade da região.

Outro momento salutar foi com relação a mística: “avancem para águas mais profundas e lancem suas redes para pescar”, um mantra comovente e emocionante, contexto da realidade amazônica na conexão com o Divino. Além de ter feito sentido com a questão marcante da região, os ribeirinhos, tema abordado pelo cientista social, Leonne Domingues Alves do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Pará (IFPA).
O encontro com a teóloga indígena colombiana, Tania Avila foi salutar para mim enquanto latino-americano, povo com uma história apagada com relação aos antepassados. A teóloga Avila, apontou a necessidade do diálogo intercultural para o fortalecimento das nossas raízes e a interaprendizagem que aponta a reciprocidade da escuta, causando grande sensibilização de quem a escutava e compartilhava do fortalecimento das raízes e quebra de tal raiz pela colonização. Avila salientou a importância dos sonhos para os Andes; a necessidade do corpo para esperançar, quebrando a ideia de um corpo “amaldiçoado” em filosofias religiosas como aponta a escritora Uta Ranke - Heinemann em “Eunucos pelo Reino de Deus: mulheres, sexualidade e a igreja católica”, e de um corpo sem destaque no mundo acadêmico como salienta a escritora Bell Hooks em seu livro “Ensinando a transgredir”. Além disso, a partir de uma reflexão e dinâmica, Tania Avila retratou a importância da água e a ligação desta com o território amazônico, que atinge de modo direto e constante, a vida cotidiana de diferentes povos em diferentes lugares.
E o teatro e antropologia como ponte para a identificação com o território amazônico pelos amazônidas, isto é, as artes cênicas como meio de conhecimento, protesto e informação através da criatividade, representação, corporeidade e encenação, como salientou a antropóloga Jéssica Miranda, enfatizando o mundo artístico como núcleo de resistência, nesse caso, com relação a história e identidade da região amazônica.
O encontro “Animadores Ser Mais Amazônia”, foi, portanto, crucial para me ater ao que de mim foi/é – raízes, quem são os povos da Amazônia segundo os próprios, a importância de amazonizar no cotidiano contra a política ambiental atual e em pequenos atos de cuidado com a casa comum, e com toda certeza, maior conhecimento daquilo que sou em comum aos amazônidas, apenas um jovem latino-americano."




Túlio Tavares – sociólogo formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), membro do grupo Católicos LGBTQIA+ (Diversidade Católica) no Rio de Janeiro.




13 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo